quarta-feira, 12 de março de 2008

Asana do dia

Sirsasana























sou um cara extremamente dispersivo e, às vezes, é preciso acertar o foco e trabalhar a concentração, né verdade?
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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008


Sabem qual é o maior problema em ler livros e artigos na tela do computador (pdf ou via web)? Não dá pra usar marca-texto!

Atualização: graças à provocação do Alex, corri atrás e consegui baixar esse programinha, que me permite marcar, sublinhar e anotar meus arquivos pdf à vontade.
agora, só falta descobrir um jeito de fazer a mesma coisa com arquivos html...
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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Coisas que eu ando lendo por aí...























... e começa mais um ano ...
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quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

uhmm... será que 2008 já começou?
não, não, começa mesmo só lá pro dia 7 ou 8 de fevereiro...
enquanto isso, continuarei aqui mais um tempinho, olhando o mar azul azul pela janela do apartamento e jogando mahjongg na tela do computador.
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terça-feira, 4 de dezembro de 2007
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segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Dois lançamentos, mesma hora e lugar


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quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Grande abraço de despedida na Fonte Nova

Mais informações aqui.

E, aqui, um texto contrário à demolição do estádio, do ponto de vista arquitetônico (mas escrito antes da tragédia do último domingo).
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quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Etnografia Digital 2 (e 3)



Alguém se lembra do filmete The Machine is Us/ing Us, de que eu falei nessa postagem aqui?

Bom, este Information R/evolution, feito pelo mesmo antrópologo da Kansas State University, Michael Wesch, é uma espécie de continuação dele. E continua dizendo coisas interessantes a respeito dessa tal Web 2.0.

Ah, e a mesma turma tb é responsável por outro filminho, A Vision of Students Today, que eu confesso que não achei tão bom...
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domingo, 25 de novembro de 2007

Alegria e tragédia na Fonte Nova

O resultado de 0 a 0 contra o Vila Nova – GO, na tarde desse domingo, garantiu ao Esporte Clube Bahia, matematicamente, o acesso à série B de 2008 com uma rodada de antecedência.

Uma ocasião que poderia ser apenas de alegria para a sofrida torcida tricolor (que hoje, mais uma vez, encheu a Fonte Nova com 60 mil pagantes), transformou-se em tragédia: um pedaço da arquibancada do estádio, no setor onde fica a torcida organizada Bamor, ruiu. Várias pessoas despencaram de uma altura de mais ou menos quarenta metros; Sete torcedores morreram e cerca de quarenta ficaram feridos, alguns em estado grave.

Espero que o poder público (a Fonte Nova é de propriedade do governo do estado) e também a direção do Bahia ajam com dignidade e dêem aos familiares das vítimas a devida assistência.

Essa tragédia também deve influenciar na decisão de demolir o estádio e construir outro em seu lugar, para receber os jogos da Copa de 2014.

Por tudo o que aconteceu na tarde de hoje, e pelo que fez ao longo do campeonato, este blogue presta aqui a sua homenagem à fanática torcida do Bahia... ela a merece muito mais do que o time ou os dirigentes.

(imagem daqui)

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atualização: dois blogues baianos de que eu gosto muito repercutiram a tragédia.
+ Ingresia, de Franciel e
+ Eu Tava Aqui Pensando ou Blá Blá Blá, de Ricardo Cury
atualização 2: continuarei lincando aqui os relatos que eu achar na blogosfera sobre o fatídico dia.
+ O dia mais triste da história da Fonte Nova, do blogue Bora Bahêêêa, Minha Porra!!
+ Uma tragédia inaceitável, do blogue Sempre Bahia
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terça-feira, 20 de novembro de 2007

“Câmara de Eco” - uma tirinha


(daqui)
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segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Habermas e a internete


Através do fundamental Carnet de Notes, de André Lemos, acabei chegando a esse post aqui, em que o comunicólogo norte-americano Howard Rheingold, professor de Berkeley e Stanford, fala um pouco sobre a relação entre Habermas e a tão declamada “era da informação em rede” alavancada pela internete.

De lá, pulei para esse outro post sobre o mesmo tema, escrito por um teórico australiano.

Confesso minha enorme ignorância a respeito do filósofo alemão e sua teoria da ação comunicativa e constituição da esfera pública. Mas acho q a reflexão sobre os efeitos do debate público “em rede” é algo sobre o qual temos q nos debruçar permanentemente, de agora em diante.

A principal questão é: a democratização exponencializada da oferta no mercado de opiniões, propiciada pela web, contribui ou não (e de que forma) para o fortalecimento da ágora? Ou continuaremos submetidos a constrangimentos tais como a “objeção de Babel” (quando todo mundo fala ao mesmo tempo e, portanto, ninguém escuta o outro) e a “câmara de eco” (em que nós só escutamos aqueles com relação aos quais já compartilhamos opiniões semelhantes)?

É coisa para se seguir pensando...

Em tempo: eis aqui um blogue habermasiano.
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sábado, 17 de novembro de 2007

Gregos derrotam alemães, 1 a 0


esses caras do Monty Python são engraçados demais...
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quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Ouvindo - Le Rendez-Vous, de Manu Chao


Infelizmente, não encontrei no YouTube a versão original.

Vocês vão ter q se contentar com Nicoletta, essa “chanteuse vintage mai 1968” aí q eu nunca tinha ouvida falar antes, mas q até não está pas mal. (de quebra, levam ainda uma interpretação direitinha de “Georgia on my Mind”, de Ray Charles.)

enfim, adoro a letra em “franglais” de Manu Chao:

we hang around dans ton quartier
I like walkin' down champs elysées
you let me get in dans ton lit
best place in Paris to be!

[...]

then you said: stop it! ça suffit!
won't let you get in dans ma vie
and anything I'd say or do
would it change your mind? - non, pas de tout...

PS: ah! e parabéns ao Vitorinha-BA pelo retorno à série A. nós, tricolores, continuamos nossa via crucis na terceirona... será q esse ano vai dar?
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quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Alex Castro, J. L. Borges e o Tempo: História e Memória

(imagem daqui)
















Vocês me dão licença, mas eu preciso ter uma *conversação* aqui com meu amigo Alex Castro a respeito de um troço que ele escreveu...

Me explico: Alex cometeu, uns dias atrás, este interessantíssimo post, onde ele nota o papel central que a noção de tempo (cronológico) desempenha em dois dos mais conhecidos contos do escritor argentino Jorge Luís Borges: “Pierre Ménard, Autor do Quixote” e “Funes, o Memorioso”. (Cliquem e leiam - ou releiam - os ditos cujos.)

A tese de Alex pode ser resumida na frase final do seu post: “para Ménard, o tempo é tudo; para Funes, não é nada”. Isto porque, como ele argumenta, é apenas a percepção da passagem do tempo (trezentos anos, de fato) que dá algum sentido ao esforço que Pierre Ménard empreende para reescrever o Dom Quixote de Miguel de Cervantes. E, por outro lado, para Irineo Funes, personagem principal do segundo conto, “é como se o tempo não existisse”, já que ele é incapaz de estabelecer conexões diacrônicas entre cada um de seus registros de memória.

Bem, eu acho que a idéia toda é realmente uma bela sacada do Alex (ou um belo insight, como vão querer os leitores anglófilos). Além do mais, também me pegou em uma boa hora, pois nos últimos dias eu venho lendo um monte de coisas teórico-metodológicas sobre a relação entre História e Memória, e então eu tenho engatilhadas algumas abobrinhas que posso escrever aqui para “conversar” com o post do nosso Liberal Libertário e Libertino.

Pra começar, me parece que a analogia do Pierre Ménard com o historiador é até bastante óbvia, apesar de Borges tê-lo caracterizado como um poeta simbolista ou coisa que o valha.

O primeiro método de trabalho imaginado por Ménard, por exemplo (“...conocer bien el español, recuperar la fe católica, guerrear contra los moros o contra el turco, olvidar la historia de Europa entre los años de 1602 y de 1918, ser Miguel de Cervantes...”), me lembrou as postulações radicalmente empiristas e historicistas de gente como o historiador alemão Leopold von Ranke ou seus seguidores franceses da chamada Escola Metódica, como Gabriel Monod ou Charles-Victor Langlois e Charles Seignobos, que achavam que ao historiador cabia apenas registrar, fundado em fontes seguras, a ocorrência dos fatos históricos, sem procurar tirar conclusões especulativas ou teóricas a partir deles.

Para esses autores, a História devia ser escrita de maneira “objetiva” ou “positiva”, obedecendo a uma suposta neutralidade dos acontecimentos (francófilos: “événements”). Os fatos, eles acreditavam, deveriam falar por si mesmos, sem “interferência” do historiador. Ficou famosa, a esse respeito, a afirmação de von Ranke de que não cabia ao historiador “julgar o passado e nem instruir seus contemporâneos com relação ao futuro, mas simplesmente relatar a história tal como ela realmente ocorreu (germanófilos: “[…] nicht das Amt die Vergangenheit zu richten, die Mitwelt zum Nutzen zukünftiger Jahre zu belehren, sondern bloß zu zeigen, wie es eigentlich gewesen[…]”).

Mas esse posicionamento metodológico, bastante forte ao longo dos Oitocentos, já estava sendo rechaçado na passagem para o século seguinte. Uma das críticas mais contundentes partiu do sociólogo francês François Simiand, que, em um artigo publicado em 1903 (“Méthodes Historiques et Sciences Sociales”), desceu o malho na pretensa objetividade de Seignobos e companhia em face dos fatos históricos.

Para Simiand, tal pretensão dos historiadores positivistas era nada menos do que impossível, uma vez que toda enunciação de événements implicaria, por definição, escolhas por parte do autor (certos fatos são tomados como importantes, outros são omitidos, etc.), e muitas dessas escolhas, inclusive, sequer podem ser controladas, pois são exigências da própria época em que a obra histórica está sendo escrita. (Em outras palavras: um livro de história quase sempre traz, nas entrelinhas, muito mais informações sobre a época em que ele foi escrito do que a respeito do período histórico que é seu objeto.) Aí veio a École des Annales, adotou Simiand como uma espécie de guru, e essa percepção entrou para o senso comum historiogáfico.

É por conta disso que, voltando ao conto de Borges, Pierre Ménard não pode escolher ser Cervantes para reescrever o Quixote. Ele está fadado a continuar sendo Pierre Ménard. É claro que Borges, em um típico recurso borgiano, faz com que essa contingência pareça ter sido uma escolha deliberada de Ménard, mas é uma escolha feita a partir de uma impossibilidade: “Pierre Ménard estudió ese procedimiento (sé que logró un manejo bastante fiel del español del siglo diecisiete) pero lo descartó por fácil. ¡ Mas bien por imposible! dirá el lector. De acuerdo, pero la empresa era de antemano imposible y de todos los medios imposibles para llevarla a término, éste era el menos interesante”.

Há mais duas passagens do texto que me pareceram incluir alguma reflexão, por assim dizer, historiográfica.

A primeira delas é mais sutil. Surge quando Ménard compara a sua empreitada de reescrever o Quixote com a que Cervantes levou a cabo, três séculos antes. Ele descreve sua tarefa, então, como um “misterioso deber de reconstruir literalmente [una] obra espontánea”. Ora, acaso não é esse o teor do ofício do historiador? Reconstruir intelectualmente um processo histórico cujos nexos causais muitas vezes escaparam aos próprios agentes que nele tomaram parte?

A outra passagem é explícita. Trata-se do extrato do Quixote que é cotejado pelo narrador em suas duas versões absolutamente idênticas (mas absolutamente diferentes, é claro, risos). Vejam só: “... la verdad, cuya madre es la historia, émula del tiempo, depósito de las acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente, advertencia de lo por venir”.

Quando escritas pela “engenhosidade leiga” de Cervantes, essas palavras não passam, para o narrador, de “mero elogio retórico de la historia”. O que temos, aqui, é a História de Cícero: testemunha dos tempos, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, mensageira dos antigos (latinófilos, recebei, hehe:“Historia est testis temporum, lux veritatis, vita memoria, magistra vitae, nuntia vetustatis”).

Contudo, reescritas séculos depois por Pierre Ménard, contemporâneo do filósofo e psicólogo norte-americano William James (autor de livros como Pragmatism, de 1907, e The Meaning of the Truth, de 1909), transformam-se em uma idéia “asombrosa”. As palavras não mudaram nada, mas a leitura delas mudou absolutamente, pois mudaram os tempos. A História agora pode se proclamar mãe da verdade, porque se transformou em uma disciplina “cientifíca” que supostamente verifica a autenticidade dos fatos que narra. “La verdad histórica, para el [Ménard], no es lo que sucedió; es lo que juzgamos que sucedió”. Impressionante, né não?

Já o segundo conto, “Funes, el Memorioso”, é todo montado em torno da questão da memória. O personagem central, Irineo Funes, sofre um acidente e, depois disso, passa a ter a habilidade de registrar em sua mente absolutamente TODOS os fatos que testemunha. Passa a se lembrar de tudo o que vê ou escuta. Torna a lembrar, inclusive, coisas que havia presenciado antes do tal acidente milagroso. Além disso, passa também a ter o poder de observar a realidade com uma riqueza de detalhes infinitamente maior do a que os outros mortais. “Su percepción y su memória eran infalibles”, nos informa o narrador da história.

A grande armadilha narrativa montada por Borges, aqui, está na singela circunstância de que, apesar de seus poderes impressionantes, e de até ser chamado de “O Memorioso” no título do conto, o pobre Funes, simplesmente, NÃO TEM memória. Isto porque a memória implica não somente a capacidade de recordar, mas também a capacidade de esquecer, de selecionar determinadas coisas em detrimento de outras, e montar uma narrativa a partir disso.

Além disso, a memória tampouco é permanente, estática. Ela varia no tempo, modifica-se um tanto a cada vez que nos lembramos de algo. E a noção do tempo, como bem notou Alex, é coisa que o coitado do Funes não possui. (Aliás, não deixa de ser irônico notar que antes do acidente essa era justamente uma das características marcantes do “cronométrico Funes”.)

O sociólogo Michael Pollak, em seu artigo “Memória e Identidade Social” , fala sobre a memória nos seguintes termos:

A memória é seletiva. Nem tudo fica gravado. Nem tudo fica registrado. A memória é, em parte, herdada, não se refere apenas à vida física da pessoa. A memória também sofre flutuações que são função do momento em que ela é articulada, em que ela está sendo expressa. As preocupações do momento constituem um elemento de estruturação da memória.

Isso é verdade também em relação à memória coletiva, ainda que esta seja bem mais organizada. Todos sabem que até as datas oficiais são fortemente estruturadas do ponto de vista político. Quando se procura enquadrar a memória nacional por meio de datas oficialmente selecionadas para as festas nacionais, há muitas vezes problemas de luta política. A memória organizadíssima, que é a memória nacional, constitui um objeto de disputa importante, e são comuns os conflitos para determinar que datas e que acontecimentos vão ser gravados na memória de um povo.

Esse último elemento da memória – a sua organização em função das preocupações pessoais e políticas do momento mostra que a memória é um fenômeno construído. Quando falo em construção, em nível individual, quero dizer que os modos de construção podem tanto ser conscientes como inconscientes. O que a memória individual grava, recalca, exclui, relembra, é evidentemente o resultado de um verdadeiro trabalho de organização.”


Pois é. Funes não é capaz de fazer esse trabalho de organização de suas lembranças. Não sabe o que excluir, o que relembrar. Não é, portanto, capaz de construir a sua própria memória.

E é isso que nos diz, quase se desculpando, o narrador da história, já no fim do conto: “Sospecho, sin embargo, que [Funes] no era muy capaz de pensar. Pensar es olvidar diferencias, es generalizar, abstraer. El en abarrotado mundo de Funes no había sino detalles, casi inmediatos”.

Assim, foi desse jeito que eu li os contos de Pierre Ménard, historiador do Quixote, e de Irineo Funes, o desmemoriado. Entrou por uma porta e saiu pela outra, quem quiser que conte outra...
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quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Serviço de Utilidade Pública


A revista Rolling Stones Brasil resolveu fazer uma lista com "os cem maiores" discos da música brasileira.

Rodolfo Castrezana, do Omedi, compilou em uma postagem os linques para baixar da rede cada um desses cem discos. Um verdadeiro serviço de utilidade pública.

A lista, como qualquer outra desse tipo, é bastante controversa e discutível. Mas, em cem discos, pode ter certeza q tem muita coisa interessante.

Então, vão lá no post do Omedi e completem a discoteca de vcs...
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domingo, 28 de outubro de 2007

Tropa de Elite


Passei o último mês lendo, blogosfera afora, um grande número de críticas e opiniões sobre o filme Tropa de Elite, do diretor José Padilha (alguns desses linques eu vou deixar no final da postagem). Ontem à noite, finalmente, pude assistir o dito cujo, e agora dou aqui meus dois ou três pitacos na polêmica que se criou em torno dele.

Pra começo de conversa – e polêmicas à parte –, preciso dizer que nem achei o filme tão fodão assim, enquanto obra artística. Deixe eu me explicar melhor, antes que alguém diga que eu tou de sacanagem.

É claro que o filme é extremamente bem-feito, especialmente do ponto de vista técnico: da fotografia, do som, da direção de arte, roteiro, atuação do elenco, etc. Acho que, nesse aspecto, ele confirma (e contribui para) a clara evolução do cinema brasileiro nos últimos anos. Pegue qualquer filme brazuca dos anos 70 ou 80 e compare com qualquer um desses mais recentes: a melhora substancial da técnica cinematográfica é evidente. Tropa de Elite confirma isso, mas, por outro lado, também não é essencialmente mais bem realizado do que Cidade de Deus, O Invasor ou Cidade Baixa, só pra citar três exemplos q me vêm à cabeça agora (existem muitos outros).

(um parêntesis para chover no molhado e dizer q a atuação de Wagner Moura como o Capitão Nascimento está mesmo espetacular. eu tenho um sentimento engraçado com relação à figura pública de Wagner pq ele, junto com a roqueira Pitty, é alguém da minha geração q eu cheguei a conhecer “antes da fama” lá na Bahia, e agora acho esquisito vê-los como *celebridades*... mas o fato é q ele merece todo o reconhecimeto q vem recebendo, pq é realmente um dos melhores atores surgidos nos últimos anos por essas bandas.)

Mas eu disse que não achei o filme tão maravilhoso assim, e isso simplesmente pq é um tipo de filme que não faz meu gênero. Cinema feito de ação ininterrupta, de tiros e explosões, com narrativa ao estilo videoclip/videogame “sem pausa para respirar” e coisa e tal, não me dá muito tesão, não é a minha praia. Não sou fã de Duro de Matar nem de Velocidade Máxima e só suporto Tarantino pelas experimentações narrativas e pelos diálogos sempre primorosos, mas não curto seus temas. E bem, Tropa de Elite é um filme desse estilo, né? Por isso, não vi muita graça.

O filme, porém, não vem sendo tão discutido assim por conta de suas qualidades cinematográficas, mas sim pelas implicações políticas que suscita. Há, pra começar, o suposto “fascismo” de que o filme vem sendo acusado pela esquerda. Não senti isso assim, tão claramente. Não achei q nele se glamourizasse o Bope, ou que se pregasse levianamente a idéia de que “bandido bom é bandido morto”. O filme retrata uma guerra, em que não há inocentes, em nenhum dos lados. Todos, sem exceção, alimentam a engrenagem de violência e ódio mútuo, e isso me pareceu bastante explícito. É claro q, como a história é narrada do ponto de vista do policial, é o modo como este vê as coisas q se coloca em primeiro plano. Mas acho q cabe ao espectador, aí, refletir criticamente sobre o que está sendo mostrado, e tirar suas próprias conclusões a respeito.

Se ele, esse espectador, concorda com a maneira como o Bope age, se concorda com a tortura como único meio de investigação utilizado, se não se importa com a matança indiscriminada de bandidos que deveriam ser antes presos e devidamente processados pela Justiça ou tampouco com a coação que se impõe à população civil pobre (vista sempre não como vítima, mas como cúmplice do tráfico) cada vez que se sobe o morro, se ele aplaude, enfim, uma polícia que age o tempo inteiro à margem da lei e do estado de direito... bem, é provável que esse espectador já fosse “fascista” antes mesmo de assitir ao filme. E a triste conclusão a que as reações em torno do filme nos levam é a de que estes “fascistas” abundam em nossa sociedade. (Tou usando “fascista” o tempo todo entre aspas aqui pq se trata de um alargamento bem grande da acepção original do conceito – mas que tem sua razão de ser, certamente.)

Acho que esse é um ponto de debate importante, que extrapola o filme em si mas que foi, talvez inadvertidamente, suscitado pelo seu lançamento. É uma pergunta relativamente simples de ser feita, mas de resposta um pouco mais complicada. Lá vai: é esta a polícia que nós queremos? Uma polícia torturadora e homicida? Uma polícia que pisoteia a todo momento alguns dos princípios e direitos mais básicos garantidos pela Constituição, a pretexto de combater o crime?

Eu não tenho qualquer dúvida em responder um sonoro NÃO a essa pergunta. Não admito a idéia de que a polícia deva perniciosamente se igualar aos bandidos que ela combate, em nenhuma circunstância. Nada justifica. Os policiais do Bope gostam de vender a imagem de que são impolutos, honestos e incorruptíveis (e o filme, num de seus pontos falhos, corrobora essa imagem). Eu, particularmente, não compro essa história tão facilmente e, se lembro bem, no próprio livro Elite da Tropa, que deu origem ao filme, são relatados casos de oficiais do Bope que “se arregaram”. Mas, mesmo que casos assim não existissem, acredito que um policial que age fora da lei como fazem os do Bope, sob qualquer justificativa, já é corrupto e desonesto, por definição. A polícia, enfim, é tão criminosa qtos os bandidos que ela antagoniza. O resto é conversa pra boi dormir.

Mas parece que, infelizmente, essa minha opinião não é tão difundida assim em nossa sociedade. Não me admira em nada, aliás, considerando-se que esta é um país que foi construído, desde seus primeiros dias, sob o signo da violência e da segregação. Continuamos nossa sina, com a novidade de que o pessoal do lado de lá agora usa AK-47 e AR-15, e resolveu revidar. É uma guerra civil não declarada.

O rastro de ódio aparece no YouTube:





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A outra polêmica importante suscitada pelo filme é a da culpabilização do usuário de drogas das classes média e alta pelo financiamento do tráfico. Mas, desse assunto, eu quero tratar em uma entrada específica, logo mais.

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Três detalhes menores do filme q atraíram a minha atenção:
1) A estupidez da operação do Papa. Mais que estupidez, aliás, uma verdadeira maldade social, uma insensibilidade sem tamanho. Será q Sua Santidade conseguiu dormir tranqüilo naquela noite, mesmo tendo dado ensejo a todas aquelas mortes com sua vontade besta de fazer turismo na favela?
2) Vcs repararam no número do candidato a senador apoiado pela ONG dos playboyzinhos maconheiros? 451. “quatro mais um, cinco. cinco menos quatro, um. Senador Magalhães, 451”. Achei engraçado...
3) As seqüências do curso de treinamento do Bope me trouxeram uma certa nostalgia da minha época de serviço militar obrigatório. Pois é, vcs podem não acreditar, mas eu sou 2° Tenente R/2 (reserva) do Exército, da arma de Infantaria, hehe. E pedagogia militar é aquilo mesmo q está mostrado no filme, principalmente nos “campos”... uma mescla de intruções teóricas maçantes (como na cena da aula de estratégia em todos aqueles idiomas) e instruções práticas que são pensadas com o objetivo de “construir o caráter do combatente”, para usar o jargão do EB. É nessas horas q a gente compreende o significado profundo de um velho provérbio militar: “quando o corpo não aguenta, a moral é que sustenta!”

***

Alguns outros posts sobre o filme (é só olhar no Google ou Technorati q se acha muitos mais:)

+ O Biscoito Fino e a Massa
+ A Torre de Marfim
+ O Velho do Farol
+ Catatau
+ Pedro Dória
+ Global Voices Online
+ Baú de Tranqueiras
+ Liberal, Libertário, Libertino
+ Blog do Alon
+ Mary W
+ Sergio Leo
+ Na Prática, a Teoria é Outra
+ Observatório da Cannabis
+ Vanguarda de História
+ Vanguarda de História
+ Luís Eduardo Soares fala sobre a recepção do filme
+ Matéria da BBC News sobre o Bope (em inglês)

***

Por fim, dois excelentes blogues escritos por policiais cariocas, que falam do filme e de outros assuntos ligados ao tema da Segurança Pública (e q eu não conhecia antes dessa polêmica toda):

+ Blog da Segurança Pública
+ Diário de um PM
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segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Histórias do futebol baiano


Ao ler essa notícia, fiquei com vontade de tentar falar um pouco da história do futebol na Bahia.

Muita gente de outras regiões do país talvez imagine que o futebol baiano sempre esteve dividido apenas entre Bahia e Vitória, mas as coisas não foram bem assim. Times como Galícia e Leônico, protagonistas desse último drama, já foram bastante tradicionais no estado, assim como o auri-negro Ypiranga e o alvi-rubro Botafogo. E eu sempre tive vontade de escrever alguma coisa sobre essas velhas forças que sumiram na poeira dos tempos...

Acontece que, quando fui pesquisar a rede em busca de subsídios para montar um post, descobri que o sempre erudito Balípodo já tinha dito quase tudo o que eu gostaria de contar sobre o assunto, em dois belos textos.

Não me restou nenhum remédio, portanto, senão dar os linques. Leiam, pois vale a pena: “O centenário do Campeonato Baiano” e “Os pequenos ilustres de Salvador”.

Outros linques relacionados:
+ O percuciente Ingresia trata do assunto
+ Blogue não-oficial do Galícia
+ Leônico, campeão baiano de 1966
+ Semelhanças entre o Leônico e o Juventus(SP)
+ Blogue não-oficial do Ypiranga
+ Uneb discute revitalização do Ypiranga em seminário
+ Blogue com a história dos primeiros anos do futebol baiano
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terça-feira, 9 de outubro de 2007

Eu e Che, Che e eu


Viva el Che! Vive el Che?

Pois então. Quer dizer q essa semana completaram-se 40 anos da morte do revolucionário latinoamericano...

Quarenta anos, portanto, q morreu o homem e nasceu o mito. Um mito, é claro, continuamente falseado, maquiado, construído e reconstruído, como aliás costuma acontecer com os mitos.

Eu não sou muito de ficar cultuando ídolos, nem gosto de festejar mártires ou próceres. Ainda mais um marxista que, depois de morto, se transforma em mercadoria. Contradição demais pra minha cabeça, e não sei se dialética.

(Será q ele teria ficado satisfeito com essa metamorfose de sua memória? talvez não, mas talvez sim – vai saber...)

De modo que, se vcs quiserem saber qual é a minha relação con el pibe Guevara, é só dar uma olhadinha na página de rosto deste livro aqui. Tá lá meu nome: fui eu que traduzi.
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segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Bombadeira

Este blogue interrompe temporariamente seu mais recente período de hibernação para mandar um forte abraço virtual ao meu bróder velho Luís Carlos de Alencar Filho (a.k.a. Explicadinho) pela exibição do documentário Bombadeira, seu primeiro longa-metragem, na Mostra de Cinema Brasileiro na Suécia 2007.

(Quem, como eu, não entender lhufas de sueco, pode ficar sabendo mais sobre o filme aqui, aqui, aqui ou aqui. Vale lembrar ainda a indicação na categoria Documentário Longa-Metragem no III Festival de Cinema dos Países de Língua Portuguesa, realizado em maio desse ano em João Pessoa.)

Luís Carlos, como eu e como outros colegas nossos, é mais um bacharel em Direito da UFBa q se afastou da área jurídica e foi fazer outra coisa da vida. Acho q isso até nos torna, modéstia às favas, muito mais interessantes, né verdade? Risos. Luís também é quadrinista, fã da fase Transformer de Lou Reed, além de tocar o blogue Café Queimado.

De minha parte, eu vou ficar aqui aguardando a oportunidade de poder assistir Bombadeira na sala escura. Será q não vai vir nenhuma cópia pra SP, não?
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sexta-feira, 24 de agosto de 2007


Bem, acabou-se o que era doce. Já tou de volta a Sumparlo. Bahia outra vez, agora, só no final do ano.

A viagem até que foi proveitosa. Conversei longamente com Marcelo Duarte no gabinete da vice-prefeitura (com uma vista magnífica para o Forte São Marcelo). Ele me deu algumas cópias de discursos seus em homenagem ao pai, de diferentes ocasiões (1994, 1996 e 2002) – e também de um discurso do senador Josaphat Marinho (de 1994).

Me apresentou, ainda, a um trabalho que eu não conhecia: Nestor Duarte – Inquietação e Rebeldia – Uma Biografia Crítica (Salvador: Instituto Advogado Gonçalo Porto de Souza, 2004), escrito por Waldir Freitas Oliveira, Professor Emérito da UFBa, ex-diretor do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO) e ex-presidente do Conselho Estadual de Cultura, dentre outras coisas. Muito interessante, aparentemente.

Outra coisa que eu não sabia e que fiquei sabendo é que o primeiro volume da Revista Jurídica dos Formandos em Direito da UFBa, de 1996, foi uma edição em homenagem a Nestor Duarte. Já está na minha lista de publicações a encontrar. Se alguém souber de qualquer informação que possa me ajudar a achar uma dessas revistas, por favor me avise.

Além disso, ainda gastei os tubos na livraria da Edufba (no Campus de Ondina) e no sebo Brandão (na Rua Ruy Barbosa) – nem sempre é fácil encontrar aqui em SP os livros publicados no norte-nordeste do país.

A greve dos servidores das universidades federais me impediu de consultar os acervos da Biblioteca Central da UFBa e também do Centro de Estudos Baianos. Ficou para uma próxima vez.

No campo afetivo-social, tomei muitas cervejas nos bares do Rio Vermelho com um bando de gente querida que eu quase nunca vejo. E conheci gente nova e interessante também, claro. Almocei um par de vezes no Porto do Moreira – a moqueca de carne continua imbatível. Me fartei com um côco gelado no final da tarde, entre o Barravento e o Farol (e fiquei devendo R$ 1 pro vendedor, que não tinha troco). Avistei Jaime Figura andando pela Praça da Piedade. Fui na Fonte Nova duas vezes. Fui chamado de gringo inúmeras vezes. E, surpreendentemente, ouvi muito pouca axé music pelas ruas...

***

A trilha sonora de hoje foi uma espécie de hino da minha adolescência revoltada com o monocromático horizonte cultural da província da Bahia.

Fez parte do primeiro compacto do Camisa de Vênus, lançado em 1982, e é uma versão livre de uma música do Clash. Mais, não digo: cliquem e ouçam.

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sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Back in Bahia

“Eu pensei que você tivesse escolhido estudar Nestor Duarte por causa do livro A Ordem Privada..., mas agora estou vendo que você quer mesmo estudar é a Bahia!”, fuzilou meu orientador no meio de uma conversa que tivemos sobre meu projeto de pesquisa.

Não acho que ele estivesse totalmente certo, mas também não estava de todo errado. Eu tinha acabado de ler um livro do historiador Paulo Santos Silva (Âncoras de Tradição – luta política, intelectuais e formação do discurso histórico na Bahia (1930-1949). Salvador: Edufba, 2000), e estava fascinado pela possibilidade de conhecer mais a fundo a conjuntura política baiana nas décadas de 1920, 30 e 40, principalmente o movimento conhecido como Concentração Autonomista da Bahia, que, nessa época, unificou as diversas correntes partidárias do estado em torno de um projeto comum de oposição ao governo de Getúlio Vargas. Nestor Duarte, ainda jovem, foi um dos que tomaram parte nessa grande frente.

Com certeza, a leitura recente do trabalho de Paulo Silva contagiou nossa conversa naquele dia, a ponto de levar meu orientador a concluir que meu verdadeiro interesse de pesquisa seria a Bahia, a política baiana, e não a obra de Duarte num sentido mais amplo.

É claro que não se trata apenas disso. A dimensão regional está longe de ser o único aspecto importante da contextualização de A Ordem Privada.... Nesse ponto, aliás, acredito que reside o principal pecado da leitura que Paulo Silva faz do texto de Duarte, já que ele prefere ressaltar, no autor, uma defesa do federalismo – a meu ver, aliás, inexistente –, antes de outras características mais centrais, como a crítica da apropriação da dimensão pública da política pela chamada “ordem privada”.

Em todo caso, porém, não acho que o contexto regional possa ser descartado de antemão. Talvez não deva ser encarado como o fator explicativo primordial, mas como mais um dentre tantos, com seu peso relativo. Além disso, a crítica historiográfica mais consciente já vem apontando, nessas últimas décadas, o quanto a História brasileira ainda é escrita (inadvertidamente ou não) a partir de um ponto-de-vista que gosta de se chamar “nacional” mas que é, no fundo, do Rio de Janeiro e de São Paulo. E vem apontando, também, o quanto é bem-vindo todo esforço para reconstruir essa História com uma visada orientada a partir das diversas regiões desses país enorme e diversificado que é o Brasil – Evaldo Cabral de Mello que o diga.

Por outro lado, não tenho como negar também a dimensão pessoal e afetiva envolvida nesse meu esforço de conhecer melhor a história da Bahia. Migrado e estabelecido em Sampa há uns bons sete anos, encaro a empreitada como uma maneira de acertar minhas contas com a tão cantada e declamada baianidade – cuja exaltação acrítica, tal como se costuma fazer, eu nunca consegui engolir a seco.

(Antônio Risério, no ensaio “Uma Utopia de Lugar”, explica bem o quanto essa exaltação tem de construção mitológica, e sustenta que “o mito baiano está assentado num tripé: antigüidade histórica, originalidade cultural, beleza natural e urbana”. Desses três, o vértice histórico é a gleba onde eu quero botar o meu arado.)

Até porque, no aspecto cultural, eu nunca fui um baiano “típico”, daqueles que se ajustam facilmente à imagem cristalizada no senso comum. Sou um branquelo na maior metrópole negra das Américas (algum antropólogo formado na UFBa, discípulo de Risério, certamente me classificaria como membro da “elite brancomestiça”), sem qualquer ligação com manifestações culturais como o candomblé (que meu materialismo me impede de ver como algo melhor ou pior do que qualquer outra mitologia, seja grega, nórdica ou tupi) ou a capoeira (por absoluta falta de ginga e preparo físico). Por outro lado, também não sou descendente de nenhuma das tradicionais famílias donas-de-engenho do Recôncavo – sou mais filho da expansão industrial dos anos 1950/60/70, principalmente do Pólo de Camaçari, onde meu pai trabalhou por uns vinte anos.

Nos últimos tempos, infelizmente, eu me acostumei a dizer que minha cruz de baiano eu carrego não nas escadarias da Igreja do Paço, como quiseram Dias Gomes e Anselmo Duarte, mas nos porões da Série C do Brasileirão (e confesso que fui um dos 30 mil malucos que foram à Fonte Nova no último domigo para ver o “jogão de bola” contra o Confiança).

No campo musical, sempre me identifiquei muito mais com o hippismo preguiçoso dos Novos Baianos, o ativismo libertário de Raulzito (embora menos com suas elocubrações metafísicas) e mesmo com o niilismo safado do Camisa de Vênus do que com a gororoba pasteurizada e asséptica em que, mais ou menos a partir da década de 1990, a indústria do carnaval privatizado transformou as influências do frevo trieletrizado de Armandinho Dodô e Osmar, da batida do samba-reggae (despojado inteiramente de sua carga de crítica político-racial) e da saliência malandra que as chulas e sambas-de-roda do Recôncavo haviam incutido antes no pagode de grupos como o Gerasamba. E essa gororoba, como se sabe, foi devidamente embalada em abadás e vendida a preços salgados como se fosse a mais autêntica experiência de “baianidade”. Uma macumba pra turista recauchutada, é claro.

Por último, faltou falar de comida. Aqui sim, compareço e aprecio, feliz da vida. Pode ser na vertente do Recôncavo, com muito fruto-do-mar lambuzado em leite de côco e dendê, ou na vertente sertaneja, em que o boi e o bode surgem curtidos no sal e no sol. Tudo isso, é claro, batizado com muita pimenta e farinha... como seria possível não gostar?

***

A trilha sonora dessa postagem não podia deixar de ser a faixa homônima de Gilberto Gil, música do disco Expresso 2222. Não apenas pelo título, que eu tomei emprestado, mas por ser um rockão alucinante, rasgado, do jeito que aqueles baianos espertíssimos da tropicália gostavam de fazer.

ATUALIZAÇÃO
subi a música no GoEar. cliquem abaixo e escutem o rockão de Gil.

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quarta-feira, 1 de agosto de 2007

De quando o blogueiro repete uma velha desculpa esfarrapada para justificar a longa ausência e promete que, doravante, tudo será diferente (ou não)

Quando eu tava na graduação, na vetusta Faculdade de Direito da Bahia, e lá se vai uma década já, um grupo de amigos (grandes Douglas, Tarcísio – quem mais fazia parte da trupe?) editava um jornalzinho mimeografado, uma espécie de fanzine – naqueles tempos sem blogue –, que recebia o apropriadíssimo título de Esporádico. Era simples: como os caras, sábios que eram, não estavam a fim de assumir qualquer tipo de compromisso com a periodicidade do veículo, mas sim de escrever quando lhes desse na telha, o nome caía como uma luva. Não era um diário ou um hebdomadário, ou qualquer outra espécie de periódico. Era um esporádico.

Já eu comecei esse blogue aqui com a singela ilusão de q ia conseguir atualizá-lo pelo menos umas duas ou três vezes por semana. Logo percebi que seria impossível cumprir esses planos iniciais, porque as responsabilidades e os prazos do “mundo real” não demoraram a querer se impôr sobre minhas veleidades “virtuais” – e aqui os leitores já podem notar a pouca cerimônia deste blogueiro em empurrar-lhes goela abaixo a desgastada e rota desculpa a que faz referência o título dessa postagem, e que é a mesma que se lê em dez de cada dez blogues que ficam inativos por um período grande de tempo... “originalidade” pouca é bobagem, né não?

Mas é do jogo. E, além do mais, esse aqui é um blogue que não tem qualquer pretensão de ultrapassar os limites de sua ínfima nanoaudiência. Por isso, já não me sinto obrigado a ficar fazendo malabarismos para desovar um texto a cada 72 horas. As coisas vão vir à lume quando estiverem maduras pra isso.

Bem. O caso é q eu tou aqui na Bahia, tentando fazer alguma pesquisa e aproveitando para visitar a família, e pensei q seria um bom gancho para reativar esse espaço. Nos próximos dias, a atualização talvez seja mais assídua (olha a outra promessa safada do título se esgueirando por aí). Quando houver algo interessante pra contar, eu volto, podes crer. Mas, agora, de modo assumidamente esporádico.
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quarta-feira, 11 de julho de 2007

oi.
tou vivo ainda, viu?
mas tá difícil de postar.
qq dia desses, eu volto.
até mais!
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segunda-feira, 23 de abril de 2007


parece q, com pouco mais de um mês quase dois meses de atividade desse blogue, já estamos nos fazendo notar por aí...
descobri q estamos lincados um uma das mais importantes listagem de blogs acadêmicos q existem, o Cliopatria's History Blogroll. Estamos na seção "Primarily Non-English Language".
Chique, hein?

So, let me wish a kind welcome to anyone coming by through Cliopatria links. I'm sorry I can't write in english all the time. I hope you people understand portuguese... and come back, will ya?

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sexta-feira, 20 de abril de 2007

Dia do Índio

Só agora me toquei de uma coisa q aconteceu e q foi completamente não-intencional. Ontem, 19 de abril, foi supostamente o tal “dia do índio”, né? Pois não é q, sem querer, eu postei uma gravura de Debret em q, justamente, aparece um destacamento bandeirante matando índios botocudos? O subconsciente às vezes prega certas peças na gente... e manda mensagens subliminares. Só pra gente não esquecer o quanto o processo de colonização das Américas foi, em tantos sentidos, um gigantesco genocídio.

Procurei um mp3 daquela música de Baby Consuelo, pra postar aqui, mas não achei. Fico cantando mentalmente, então: “... todo dia, era dia de índio...”

abs.

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quinta-feira, 19 de abril de 2007

Populações Meridionais do Brasil, de Oliveira Vianna



A imagem, da famosa Voyage Pittoresque et historique au Brésil, de Jean-Baptiste Debret, eu tirei daqui. a legenda original diz: “Sauvages civilisés, soldats indiens de Mugi das Cruzas (Province de St. Paul) combattant des Botocoudos”.

Tou fazendo uma disciplina com meu orientador chamada Temas do Pensamento Político Brasileiro.

De vez em qdo, vou postar aqui umas mini-resenhas, comentários dos textos lidos para discussão em sala da aula.

E o primeiro é sobre Populações Meridionais do Brasil, de Francisco José de Oliveira Vianna.

***


Oliveira Vianna é muitas vezes tido como um dos principais ideólogos do Estado Novo e da corrente do pensamento político autoritário no Brasil, que respinga depois no regime de 1964.

De fato, ele aderiu ao regime instituído pelo golpe de Estado de 10 de novembro de 1937. Chegou a ser, inclusive, o principal responsável pela redação da legislação trabalhista promulgada no período, e que em grande parte permanece até hoje.

É certo que ele também criticou o quanto pode (em diversos textos, mas especialmente em O Idealismo da Constituição, de 1927), as instituições liberais da República Velha, que encarava como simplesmente “utópicas”, cópias dogmáticas de modelos estrangeiros, e, portanto, inadequadas para a realidade político-social brasileira.

Sua “interpretação do Brasil” o levava a apoiar um poder central fortalecido como o grande eixo estruturador do Estado e, indiretamente, da sociedade no país. Ou, para falar em termos de separação dos poderes, uma supremacia do Executivo sobre o Parlamento, e do goveno federal sobre os governos estaduais.

Essa identificação contribuiu para que Oliveira Vianna se tornasse um autor de certo modo estigmatizado dentro das ciências sociais e da historiografia brasileiras. Praticamente deixou de ser citado.

Seu racismo mal-disfarçado de cientificismo foi outra faceta que suscitou pesadas críticas. É fato que é quase impossível, para um leitor do início do século XXI, não ficar chocado diante da crueza “eugênica” de certas passagens de seus textos. A triste verdade, contudo, é que explicações tão abertamente racistas eram a regra antes que a exceção no pensamento político da época, e isso não apenas no Brasil.

É apenas a partir da segunda metade da década de 1970 que a voz de Oliveira Vianna volta a ser, de algum modo, “revalorizada” no debate historiográfico. Dois imporantes textos escritos nesse momento revisitam a obra do autor e procuram inserí-la em um modelo mais amplo de “explicação” da política brasileira, contextualizando seu autoritarismo: Formação de um Pensamento Político Autoritário na Primeira República – Uma Interpretação, artigo de Bolívar Lamounier publicado em um dos volumes de República da História Geral da Civilização Brasileira e Paradigma e História: a Ordem Burguesa na Imaginação Social Brasileira, publicado por Wanderley Guilherme dos Santos como capítulo de seu livro Ordem Burguesa e Liberalismo Político (São Paulo: Duas Cidades, 1978).

A retomada ganha impulso definitivo com a publicação de O Pensamento de Oliveira Vianna, volume organizado por Élide Rugai Bastos e João Quartim de Moraes, contando com artigo de diversos autores (Campinas: Editora da Unicamp, 1993). Um desses artigos, aliás, A Utopia de Oliveira Vianna, escrito por José Murilo de Carvalho, foi publicado também na Revista Estudos Históricos, do CPDOC, e pode ser lido clicando aqui.

Mais recentemente, outros trabalhos também fizeram da obra do sociólogo fluminense (nascido, vejam só, em Saquarema) seu tema principal. Cito, dentre tantos, o livro da historiadora Maria Stella Bresciani e o do antropólogo Luiz de Castro Faria (resenhado aqui).

Populações Meridionais do Brasil, primeiro livro publicado de Oliveira Vianna (em 1920), já concentra boa parte de suas teses sobre as formações da sociedade e do Estado brasileiros desde 1500. A principal dessas teses, como já disse, é a suposta inadequação das instituições políticas de feição liberal (“país legal”, na conhecida dicotomia) à realidade dos vínculos sociais (“país real”) do Brasil, já que esses últimos, para o autor, funcionariam em uma lógica não-liberal ou mesmo anti-liberal.

Sob muitos aspectos, a leitura de Oliveira Vianna ainda pode trazer sugestões interessantes para entender certos aspectos da sociabilidade brasileira, malgrado o seu conservadorismo, seu racismo e suas imprecisões metodológicas e factuais, pelos quais, aliás, já foi bastante execrado.

Na base de seu argumento, em Populações Meridionais, está a constatação de que o principal elemento de solidariedade social no Brasil, desde os primeiros momentos da colonização, foi aquilo que ele chama de “clã rural”, um agrupamento heterogêneo de indivíduos (núcleo familiar estendido, incluindo agregados e escravos) cuja unidade é dada pela obediência hierárquica a um grande proprietário de terras, o “chefe do clã”.

A base objetiva da soberania (no sentido estritamente político – quem manda?) do “chefe de clã” sobre o seu grupo está na propriedade de terras, no latifúndio, no que o autor chama de “grande domínio”. Esse último termo – “domínio” – também deixa transparecer a idéia de que a propriedade, no Brasil, reveste-se sempre de um caráter político, ao lado do meramente econômico.

Aqui parece haver uma certa ambigüidade no texto, já que Oliveira Vianna nega reiteradas vezes a existência de um “feudalismo” no Brasil, apesar de reafirmar, a todo momento, a face política do “grande domínio”.

O senhor-de-engenho é um “chefe de clã”, sem dúvida. Mas o bandeirante, talvez por sua dimensão heróica, é o tipo social que mais atrai a atenção do autor, e que merece a análise mais detida. A bandeira seria, para ele, “o grande domínio em movimento”.

Outros fatores objetivos, geográficos e históricos, contribuem, ao lado do latifúndio, para pôr em operação uma “função simplificadora” que prejudica o surgimento de uma solidariedade social do tipo livre-associativo no país. Aqui, a comparação é feita, principalmente, com os Estados Unidos e, em menor grau, com a Inglaterra.

Mesmo com relação a um grande fator de coesão social, como é, no entendimento do autor, a montagem de estratagemas defensivos de proteção contra inimigos externos (os platinos no sul, os piratas no litoral, índios e quilombolas por toda parte), é sempre a liderança do “grande senhor” que se impõe sobre outras formas de organização.

O resultado disso é que não há estímulo para a formação de vínculos sociais horizontais e, em decorrência, para o surgimento de instituições de self-government no sentido anglo-saxão do termo.

O poder local, no Brasil, portanto, fica sendo sempre o poder do chefe da localidade, e nunca o poder “dos cidadãos”.

A partir do século XVIII, tem início um embate perene entre os chefes locais e a máquina do Estado (inicialmente a metrópole portuguesa, depois a Corte do Império), que começa a penetrar com mais força o vasto território dos “sertões” brasileiros. No longo termo, é o Estado, o poder central, que sai vencedor desse embate, mas os chefes locais impuseram obstinada resistência.

Nessa passagem do século XVIII para o XIX, e especialmente depois das turbulências da Regência (década de 1830), o papel do Estado com relação aos “cidadãos” da localidade se transforma, passando de poder exterior e invasivo (como era, especialmente, durante o ciclo minerador, com seus quintos e derramas) para tornar-se o único ente capaz de proteger e livrar esses cidadãos da tirania dos chefes locais, os “chefes de clãs”.

Em sua cruzada contra o regime da Constituição de 1891, Oliveira Vianna lamenta que a implementação, aqui, de instituições liberais meramente “copiadas” dos modelos inglês, francês e norte-americano, tenha, dadas as características do vínculo social no Brasil, degenerado em apropriação indevida das funções do Estado por parte dos chefes proprietários.

Para esse mal, o remédio que nosso autor receita é um poder central forte o suficiente para fazer frente a esses poderes locais, criando, a partir do centro, a sociedade “liberal” que a história do país, até aquele momento, foi incapaz de criar.

– “e é bom esperar sentado, que essa tal de sociedade liberal demooora de chegar, viu?”

Certo. Um tema que compõe boa parte do pano de fundo da narrativa de Oliveira Vianna, embora ele não use a expressão, é o patrimonialismo, entendido como um regime de indefinição entre as esferas de ação pública e privada. Está lá, fortemente, na ação dos bandeirantes, na ação dos grandes proprietários.

O conceito de patrimonialismo, sistematizado por Weber, teve presença constante na literatura social brasileira, principalmente a partir dos anos 1950, como nos mostra Luiz Werneck Vianna nesse artigo. Mas, de um modo não-sistemático, já era percebido por autores tão diversos como Tavares Bastos, Oliveira Vianna e também Nestor Duarte.

Werneck Vianna, no artigo lincado, sustenta que o uso do conceito pode ser separado em um patrimonialismo “de Estado” (nas obras de Raymundo Faoro e Simon Schwartzman) ou “da sociedade civil” (casos de Florestan Fernandes e de Maria Sylvia Carvalho Franco), de acordo com o ator social identificado como maior beneficiário da prática patrimonialista. A interpretação de Oliveira Vianna provavelmente se aproxima mais do “patrimonialismo de sociedade civil”, e nisso ela possui uma clara convergência com a leitura que Nestor Duarte faz em seu A Ordem Privada e a Organização Política Nacional.

***


promete-se, para logo mais, uma seleta de citações do Populações Meriodinais.

***


Quem estiver pelos lados de Niterói pode, se quiser, visitar a casa onde morou o sociólogo fluminense e conhecer sua biblioteca com mais de 15 mil volumes. ah! e sabia que a decoração da casa ainda permanece a mesma da época em que o autor vivia lá?
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sexta-feira, 13 de abril de 2007


Me senti realmente honrado. O Biscoito foi um dos primeiros (senão o primeiro, primeirão) blogue q eu li. e, até hoje, é um dos q eu mais gosto, tanto pelo alto nível do conteúdo, como pelo amplo e permanente espaço de debate q oferece aos leitores q se arriscam a comentar por lá. Valeu, Idelber! Valeu a força...

PS – aos eventuais leitores do Biscoito q pintarem por aqui: sejam muito bem-vindos! e voltem sempre que quiserem...

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quinta-feira, 12 de abril de 2007



Vista da varanda de casa.


outro ângulo.

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sexta-feira, 6 de abril de 2007

O Partido Democrático de São Paulo (1926-1934)


O Partido Democrático foi fundado em São Paulo em fevereiro de 1926, e reunia, basicamente, elementos descontentes com o longo domínio do Partido Republicano Paulista nos governos do estado e da República. Nasceu, portanto, sob o signo da Oposição.

O PD tinha por uma plataforma formalmente liberal em termos políticos, defendendo a instituição do voto secreto e obrigatório, a representação das minorias, a independência dos três poderes e a fiscalização das eleições pelo Poder Judiciário. Era uma agremiação formalmente liberal, ainda, na defesa de determinados princípios: a legitimidade da propriedade, a igualdade jurídica, o individualismo e a liberdade de associação e de expressão.

Em questões morais, reversamente, mostrava-se extremamente conservador, promovendo campanhas contra o jogo, as bebidas alcoólicas e a prostituição, além de ser profundamente anticomunista. Alguns de seus membros, como o advogado Francisco Morato, foram monarquistas convictos até bem pouco antes de ingressar no partido.

Segundo a historiadora Maria Lígia Coelho Prado (em A Democracia Ilustrada – O Partido Democrático de São Paulo – 1926-1934, São Paulo: Editora Ática, 1986), a organização do PD se deu “a partir de embriões de três grupos políticos distintos”: o primeiro era formado por professores da Faculdade de Direito, reunidos em volta das figuras de Francisco Morato e Waldemar Ferreira; o segundo grupo estava ligado ao advogado criminalista e político oriundo do PRP, José Adriano Marrey Júnior; o terceiro era o grupo do jornal O Estado de S. Paulo, organizado em torno de seu proprietário, Júlio de Mesquita, e cujo principal nome era o do advogado e jornalista Plínio Barreto.

Seu primeiro presidente foi o Conselheiro Antônio Prado, antigo líder do Partido Conservador no Império: um agricultor, banqueiro e industrial que foi o primeiro prefeito da cidade de São Paulo (em 1899) e que permaneceu no cargo por quatro mandatos sucessivos. Ainda de acordo com Maria Lígia, “a figura do Conselheiro Antônio Prado atraiu e uniu esses grupos na tarefa de concretizar o surgimento de um partido de oposição”.

O PD teve uma boa estréia eleitoral, elegendo, em 1927, três deputados federais (Marrey Júnior, pelo 1º distrito; Morato, pelo 2º distrito; e Paulo de Moraes Barros, pelo 3º distrito) dentre os quatro candidatos que lançou. Nas duas eleições que disputou em seguida, contudo, o partido foi duramente derrotado pela máquina do PRP: no pleito estadual de fevereiro de 1928 e na disputa municipal de outubro do mesmo ano. Nessa eleição municipal, por exemplo, o partido não conseguiu eleger um sequer dos cinqüenta candidatos que lançou para disputar um lugar de vereador em São Paulo.

Ainda que fundamentalmente envolvido com questões internas à política de São Paulo, o PD procurou ultrapassar os limites regionais e estabelecer contatos em nível nacional, mas os esforços para criar um Partido Democrático Nacional (PDN) acabaram não obtendo sucesso. Em parte, talvez, pela opção da direção do partido em manter-se contrária a uma composição com forças situacionistas de qualquer estado, preferindo fazer contatos com a oposição gaúcha e com elementos dissidentes do então Distrito Federal (no Rio de Janeiro).

Essa mentalidade acabará levando o partido a participar da Aliança Liberal que vai sustentar a candidatura de Getúlio Vargas à presidência nas eleições de 1930 e, depois de malograda a iniciativa, a apoiar a derrubada do então presidente Washington Luís e a ascensão manu militari de Vargas ao poder.

Uma vez na presidência, Getúlio ignorou os apelos do democráticos para que ungisse um deles como interventor em São Paulo. A “traição” levou o partido a aliar-se a seus antigos adversários do PRP, formando a Frente Única Paulista (FUP), que exigia de Vargas a nomeação de um interventor “civil e paulista” para o estado. O impasse acabaria levando à eclosão da chamada Revolução de 1932, rapidamente derrotada pelo governo central.

O PD terminou em 1934, quando se fundiu com elementos do antigo PRP para formar o Partido Constitucionalista (PC), sob a liderança de Armando Salles de Oliveira. O PC, por sua vez, foi extinto no golpe do Estado Novo, em novembro de 1937. Muitos dos antigos membros do PD voltaram a vida política depois da redemocratização de 1945, a maior parte deles agremiados na UDN paulista.

+ leia ainda um verbete sobre o PD na página do CPDOC

+ e também uma boa resenha historiográfica sobre o PD escrita por um brasilianista

+ na foto, estão os fundadores do PD, tendo ao centro o Conselheiro Antônio Prado

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quarta-feira, 4 de abril de 2007

Sobre liberais e democratas

Ainda não me acostumei a chamar o PFL de Democratas (sigla DEM). Imagino, aliás, que não seja o único com esse problema. A primeira coisa que me soa esquisita é essa história de não usar a palavra “partido” no nome. Se houve alguma intenção de emular os democratas norte-americanos, o máximo que se conseguiu foi uma tradução barata como os nomes de bandas da jovem guarda, tipo Os Incríveis, Os Vips ou, sei lá, “Os Qualquer Coisa Assim”.

Não discuto o direito dos antigos liberais desejarem agora ser chamados de democratas. Pelo parâmetro objetivo da democracia representativa, eles têm tanto direito quanto quaisquer outros. Estão aí a mais de vinte anos disputando eleições, ganhando aqui e perdendo ali. Participando, enfim, do rodízio do poder.

É bem verdade que a história política pregressa de alguns de seus principais ícones e chefes fundadores, dissidentes da ARENA quando o barco do regime militar afundava e com origem mais distante na subversiva UDN, não é testemunha muito favorável. Tampouco o são as maneiras notoriamente truculentas de “fazer política” de alguns desses mesmos antigos líderes.

Mas o partido tenta se “reinventar”. E, em regime democrático representativo, como o nosso, parece que é perfeitamente válido aos partidos quererem reinventar-se, refundar-se, ou o nome que se queira dar a essas mudanças (sejam elas meramente cosméticas ou não). É coisa bastante comum de se ver, aliás: um político que busca um novo discurso sempre que o antigo dá sinais de não mais estar atraindo o eleitorado. Assim funciona o chamado mercado eleitoral. Às vezes a coisa toda é assimilada sem grandes comoções; outras vezes não. Mas faz parte da regra do jogo.

Em todo caso, o fato é que a relação dos liberais brasileiros com a noção de democracia sempre foi bastante ambígua. Aliás, vale anotar que liberalismo e democracia são dois conceitos políticos que, muitas vezes, são vistos e tidos como quase sinônimos ou como necessariamente complementares, mas que não são, de fato, nem uma coisa nem outra. Na historiografia da Revolução Francesa, por exemplo, é clássico o debate entre os adeptos dos princípios revolucionários de 1789 (liberais e girondinos) e os de 1793 (democráticos e jacobinos).

No Brasil, o liberalismo, apesar de muitas vezes utilizar uma retórica formalmente democrática, mostrou-se quase sempre oligárquico na essência.

Nunca empreendeu grandes esforços, por exemplo, para trazer para dentro do mercado (e, portanto, da sociedade) a vasta parcela da população brasileira que dele esteve excluída durante largos períodos de nossa história. Pouco fez pela abolição. Pouco fez pela reforma agrária.

No plano político, agiu a passos de tartaruga no tocante à ampliação do sufrágio e ao efetivo estabelecimento da incerteza na disputa eleitoral. Estas são conquistas muito recentes, asseguradas apenas nesse último período democrático (a partir de 1985).

Liberdade, aqui, quase sempre foi entendida na acepção “negativa” conceituada pelo filósofo político Isaiah Berlin, ou seja, como a liberdade que gozam os indivíduos (proprietários) de não serem importunados pelo governo em seus negócios particulares. Não é à toa, portanto (ainda que por vias tortas), que um dos principais patronos intelectuais de nossos liberais tenha sido o termidoriano Benjamin Constant, autor do texto que serviu de modelo a Berlin, Da Liberdade dos Antigos Comparada à dos Modernos (1816). (E tampouco é à toa que seu novo papa seja o economista Friedrich Hayek.)

Já tivemos em nossa história, aliás, exemplo de um partido político formalmente liberal e essencialmente oligárquico que adotou a idéia de democracia em sua própria denominação: o Partido Democrático de São Paulo, do qual tratarei na próxima postagem.

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| postado por dra às 23:05 | permalink | | |

Na foto que ilustra o topo dessa página vemos o arrabalde do Campo Grande - depois uma das principais praças de Salvador (BA) - por volta de meados do século XIX. A imagem pertence ao acervo da Fundação Gregório de Mattos.
voltar a TENTATIVAS DE MITOLOGIA
 
Um blogue que funciona como uma espécie de “diário de pesquisa” da minha tese de doutorado, um trabalho monográfico sobre o livro A Ordem Privada e a Organização Política Nacional (1939), do jurista e político baiano Nestor Duarte (mas outros posts aleatórios podem surgir quando me der na telha, claro)

+ Leia A Ordem Privada... (PDF)

Sobre Mim
eu
Diego Rafael Ambrosini, 32, graduado em Direito pela UFBA e mestre (atualmente doutorando) em Ciência Política pela USP, além de desenganado torcedor do Ex-quadrão de Aço.
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